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domingo, dezembro 14, 2003

ADEUS

A participação já vinha sendo muito reduzida ultimamente.
A motivação e a disponibilidade também não são muitas.
Há que reconhecer que o objectivo não foi atingido, não valendo a pena prosseguir num projecto menos conseguido.
Assim, hoje é o ponto final neste “blog”.
Despeço-me com votos de Feliz Natal para todos os que se deram ao trabalho de por cá navegar, muito especialmente para aqueles que fizeram o favor de divulgar este “blog” nas suas páginas.

quinta-feira, dezembro 04, 2003

NATURISTA SOFRE!



quarta-feira, dezembro 03, 2003

PARA VER E PRATICAR

Recomenda-se um passeio até aqui.


segunda-feira, dezembro 01, 2003

NEM DE PROPÓSITO (A PROPÓSITO DE RICARDO)
Até parece que adivinhava que “A Bola” ia comentar a baixa de forma de Ricardo.
Está aqui , e destaco esta passagem:

“— Naturalmente, qualquer grande clube do futebol português estaria sempre interessado no concurso de Ricardo. Sporting e Ricardo chegaram a acordo e, já com o estágio em Aix-les-Bains a decorrer, o guarda-redes entra como grande estrela. Tiago acata a condição de evidente suplente, Nélson vai à procura de clube. Não acertou com o Everton e rejeitou ingressar no Manchester City. Ricardo continuaria como titular absoluto das redes leoninas. Mas desde que entrou em Alvalade nunca mostrou ser o mesmo guarda-redes que brilhou no Boavista . Golos de livre directo, golos de canto, golos por alto, golos por baixo, golos em remates, golos em cabeceamentos, demasiados golos em que sempre ficou a ideia de que Ricardo poderia e deveria ter feito algo mais. Nenhum deles se poderá considerar um frango mas em demasiadas vezes Ricardo deu a sensação de ter ficado aquém do que as suas qualidades merecem e, sobretudo, a anos-luz do Ricardo que encantou o Estádio do Bessa. Até agora os adeptos do Sporting nunca viram o grande Ricardo, apenas um Ricardo menor, um Ricardo que hesita, que voa mas não chega à bola, que lhe toca de raspão mas ela passa. Resta saber, então, quais as razões que estão por trás deste sub rendimento: 18 golos sofridos em 15 jogos oficiais é muito golo. Obviamente, a culpa não é exclusiva de Ricardo, reparte-se também por Mário Sérgio, Beto, Hugo, Polga, Rui Jorge, pelos médios mais defensivos e, até, pelos jogadores mais criativos da equipa. Todos terão responsabilidades, tal como Fernando Santos, em tanto golo sofrido. A questão que importa aqui levantar é por que razão Ricardo sempre tem dado, esta temporada, clara sensação de insegurança. “

domingo, novembro 30, 2003

A TEIMOSIA DE SCOLARI

Pelo exemplo já visto na selecção do Brasil, quando fez orelhas moucas a todos os apelos para convocar Romário, inclusive do próprio presidente de então, Fernando H. Cardoso, Scolari não irá convocar Vítor Baía, nem que se lesionem todos os restantes guarda-redes portugueses a alinharem na Superliga.
Só que, enquanto no Brasil havia bastantes, e válidas, alternativas a um Romário já em fim de carreira, em Portugal, e no posto específico que está em causa, as alternativas de qualidade não abundam, e aquelas em que Scolari tem apostado, muito principalmente Ricardo, merecem muito do seu prestígio a uma muito benevolente imprensa, que só agora parece acordar para as fraquezas que o guardião do Sporting vem revelando.
Eu não morro de amores pelo FC Porto, antes pelo contrário, mas estando em causa a Selecção Nacional, há que escolher os melhores, sem olhar à cor das camisolas que envergam ao serviço dos seus clubes, nem a embirrações, que no caso só podem ter sido “assopradas”, pelo que para o Europeu do próximo ano, o eleito para a baliza da nossa Selecção só pode ser Vítor Baía.
E Ricardo, se continuar a “tremer”, como o tem feito ultimamente, nem no banco tem lugar.
Acorda Scolari, enquanto é tempo.

sábado, novembro 22, 2003

MÚSICA DO DIA, COM LETRAS

Termina hoje o ciclo que a Música do Dia dedicou à música portuguesa, com especial destaque para os autores das letras. Muitos outros cantores e autores poderiam por aqui ter passado, mas, ou por opção, ou por dificuldade em obter algumas composições, fica essa homenagem representada pela selecção que aqui desfilou e que contou com, José Mário Branco, Trovante, Fernando Tordo, Mariza, Amália Rodrigues, Adriano Correia de Oliveira, Carlos do Carmo, Zeca Afonso e Dulce Pontes que cantaram temas da autoria de Natália Correia, Florbela Espanca, Ary dos Santos, David Mourão Ferreira, Pedro Homem de Melo, Manuel Alegre, Alexandre O’Neill, Luís Camões, Fernando Pessoa e António Gedeão.
Neste último dia, vamos ter Rui Veloso a cantar “O Prometido é Devido” de Carlos Tê.

Naquele trilho secreto,
Com palavra santo e senha.
Eu fui língua e tu dialecto.
Eu fui lume, tu foste lenha.
Fomos guerras e alianças,
Tratados de paz e pessangas.
Fomos sardas, pele e tranças,
Popeline, seda e ganga.
Recordo aquele acordo
Bem claro e assumido
Eu trepava a um eucalipto
E tu tiravas o vestido
Dessa vez tu não cumpriste,
E faltaste ao prometido.
Eu fiquei sentido e triste.
Olha que isso não se faz.
Disseste se eu fosse audaz,
Tu tiravas o vestido,
E o prometido é devido.
Rompi eu as minhas calças.
Esfolei mãos e joelhos.
E tu reduziste o acordo,
A um montão de cacos velhos.
Eu que vinha de tão longe,
Do outro lado da rua.
Fazia o que tu quisesses,
Só para te poder ver nua.
Quero já os almanaques.
Do Fantasma e do Patinhas,
Os Falcões e os Mandrakes.
Tão cedo não terás novas minhas.
Dessa vez tu não cumpriste,
E faltaste ao prometido.
Eu fiquei sentido e triste.
Olha que isso não se faz.
Disseste se eu fosse audaz,
Tu tiravas o vestido,
E o prometido é devido.

O MEU GRANDE, MUITO GRANDE APLAUSO PARA ANTÓNIO FAGUNDES

Um dia desta semana, 5ª. ou 6ª. Feira, já não me recordo bem, quando de manhã fui ao quiosque para comprar “A Bola”, aproveitei, como faço habitualmente, para espreitar as primeiras páginas dos outros jornais, tendo reparado que o “24 Horas” dava grande destaque ao facto de António Fagundes, ou alguém ligado à produção da peça “Sete Minutos”, ter impedido que os espectadores que chegaram ao Teatro Tivoli depois da hora marcada para o início do espectáculo entrassem para a sala onde decorria a acção, dando origem a manifestações de protesto, que o jornal intitulou de “PEIXEIRADA”.
Ora, para além do aviso bem expresso no anúncio da peça (“ Pede-se a máxima pontualidade. Uma vez começado o espectáculo não será permitida a entrada na sala, excepto nos intervalos entre actos ou obras.“), trata-se de um princípio de respeito para com os actores, que já estão no palco a trabalharem, bem como para os restantes espectadores, que chegaram a tempo e horas, e que se vêem incomodados para cederem a passagem aos retardatários.
Assim, o meu grande, muito grande aplauso para António Fagundes, pela sua corajosa atitude, de combate ao nacional porreirismo dos que estão habituados a nunca respeitarem os horários, exemplo que deveria ser seguido em todas as salas de espectáculo.

sexta-feira, novembro 21, 2003

MÚSICA DO DIA, COM LETRAS

Hoje temos Carlos do Carmo (é uma repetição, porque não consegui a versão do Manuel Freire) a cantar "Pedra Filosofal", de António Gedeão (Rómulo de Carvalho, de seu verdadeiro nome, antigo professor de Física e Química no liceu Pedro Nunes).


Eles não sabem que o sonho
é uma constante da vida
tão concreta e definida
como outra coisa qualquer

como esta pedra cinzenta
em que me sento e descanso
como este ribeiro manso
em serenos sobressaltos

como estes pinheiros altos
que em verde e oiro se agitam
como estas árvores que gritam
em bebedeiras de azul

eles não sabem que sonho
é vinho, é espuma, é fermento
bichinho alacre e sedento
de focinho pontiagudo
que fuça através de tudo
no perpétuo movimento

Eles não sabem que o sonho
é tela é cor é pincel
base, fuste ou capitel
arco em ogiva, vitral

Pináculo de catedral
contraponto, sinfonia
máscara grega, magia
que é retorta de alquimista

mapa do mundo distante
Rosa dos Ventos Infante
caravela quinhentista
que é cabo da Boa-Esperança

Ouro, canela, marfim
florete de espadachim
bastidor, passo de dança
Columbina e Arlequim

passarola voadora
pára-raios, locomotiva
barco de proa festiva
alto-forno, geradora

cisão do átomo, radar
ultra-som, televisão
desembarque em foguetão
na superfície lunar

Eles não sabem nem sonham
que o sonho comanda a vida
e que sempre que o homem sonha
o mundo pula e avança
como bola colorida
entre as mãos duma criança


MÚSICA DO DIA, COM LETRAS

Hoje temos Dulce Pontes a cantar "O Infante", de Fernando Pessoa.

Deus quer, o homem sonha, a obra nasce
Deus quis que a Terra fosse toda uma
Que o mar unisse, já não separasse
Sagrou-te e foste desvendando a espuma

E a orla branca foi
De ilha em continente
Clareou correndo até ao fim do mundo
E viu-se a terra inteira, de repente
Surgiu redonda do azul profundo

Quem te sagrou, criou-te português
Do mar e nós em ti nos deu sinal
Cumpriu-se o mar e o império se desfez
Senhor, falta cumprir-se Portugal

quarta-feira, novembro 19, 2003

MÚSICA DO DIA, COM LETRAS

Hoje temos Zeca Afonso a cantar "Verdes são os Campos", de Luís de Camões.

Verdes são os campos,
De cor de limão:
Assim são os olhos
Do meu coração.

Campo, que te estendes
Com verdura bela;
Ovelhas, que nela
Vosso pasto tendes,
De ervas vos mantendes
Que traz o Verão,
E eu das lembranças
Do meu coração.

Isso que comeis
Não são ervas, não:
São graças dos olhos
Do meu coração.



terça-feira, novembro 18, 2003

MÚSICA DO DIA, COM LETRAS

Hoje temos Carlos do Carmo a cantar "Gaivota", de Alexandre O'Neill.

Se uma gaivota viesse
trazer-me o céu de Lisboa
no desenho que fizesse,
nesse céu onde o olhar
é uma asa que não voa,
esmorece e cai no mar.

Que perfeito coração
no meu peito bateria,
meu amor na tua mão,
nessa mão onde cabia
perfeito o meu coração.

Se um português marinheiro,
dos sete mares andarilho,
fosse quem sabe o primeiro
a contar-me o que inventasse,
se um olhar de novo brilho
no meu olhar se enlaçasse.

Que perfeito coração
no meu peito bateria,
meu amor na tua mão,
nessa mão onde cabia
perfeito o meu coração.

Se ao dizer adeus à vida
as aves todas do céu,
me dessem na despedida
o teu olhar derradeiro,
esse olhar que era só teu,
amor que foste o primeiro.

Que perfeito coração
morreria no meu peito,
meu amor na tua mão,
nessa mão onde perfeito
bateu o meu coração.

PRAXES

Já aqui deixei, em “post” anterior, o meu repúdio à forma humilhante como normalmente tem sido conduzida a prática da praxe académica na maioria dos estabelecimentos de ensino universitários portugueses.
Há pouco, quando assistia ao Telejornal da RTP1, vi uma reportagem passada em Viseu, no Instituto Politécnico local, em que os caloiros, após detalhada explicação sobre o que estava em causa, foram convidados a inscreverem-se como dadores de medula.
Pelo que foi anunciado, cerca de 40 estudantes já haviam feito a sua inscrição, tendo já realizado os exames prévios que a medida requer.
Pode-se dizer que o número ainda é baixo, mas, como também foi referido, o número de dadores recenseados em todo o país é de cerca de mil, logo, em termos percentuais, estamos perante uma iniciativa de grande dimensão.
Assim, não posso deixar de saudar esta medida, pelo significado que encerra, pela atitude altruísta que representa e pelo exemplo que dá a outras academias.


segunda-feira, novembro 17, 2003

MÚSICA DO DIA, COM LETRAS

Hoje temos Adriano Correia de Oliveira a cantar "Trova ao Vento que Passa", de Manuel Alegre (os versos entre parêntesis não estão incluídos na canção).

Pergunto ao vento que passa
notícias do meu país
e o vento cala a desgraça
o vento nada me diz.

[Pergunto aos rios que levam
tanto sonho à flor das águas
e os rios não me sossegam
levam sonhos deixam mágoas.
Levam sonhos deixam mágoas
ai rios do meu país
minha pátria à flor das águas
para onde vais? Ninguém diz.
Se o verde trevo desfolhas
pede notícias e diz
ao trevo de quatro folhas
que morro por meu país.
Pergunto à gente que passa
por que vai de olhos no chão.
Silêncio -- é tudo o que tem
quem vive na servidão.
Vi florir os verdes ramos
direitos e ao céu voltados.
E a quem gosta de ter amos
vi sempre os ombros curvados.
E o vento não me diz nada
ninguém diz nada de novo.
Vi minha pátria pregada
nos braços em cruz do povo.
Vi minha pátria na margem
dos rios que vão pró mar
como quem ama a viagem
mas tem sempre de ficar.
Vi navios a partir
(minha pátria à flor das águas)
vi minha pátria florir
(verdes folhas verdes mágoas).
Há quem te queira ignorada
e fale pátria em teu nome.
Eu vi-te crucificada
nos braços negros da fome.
E o vento não me diz nada
só o silêncio persiste.
Vi minha pátria parada
à beira de um rio triste.
Ninguém diz nada de novo
se notícias vou pedindo
nas mãos vazias do povo
vi minha pátria florindo.
E a noite cresce por dentro
dos homens do meu país.
Peço notícias ao vento
e o vento nada me diz.
Quatro folhas tem o trevo
liberdade quatro sílabas.
Não sabem ler é verdade
aqueles pra quem eu escrevo.]

Mas há sempre uma candeia
dentro da própria desgraça
há sempre alguém que semeia
canções no vento que passa.

Mesmo na noite mais triste
em tempo de servidão
há sempre alguém que resiste
há sempre alguém que diz não.

domingo, novembro 16, 2003

MÚSICA DO DIA, COM LETRAS

Hoje temos Amália Rodrigues a cantar "Povo Que Lavas no Rio", de Pedro Homem de Melo.

Povo que lavas no rio
E talhas com o teu machado
As tábuas do meu caixão.
Pode haver quem te defenda
Quem compre o teu chão sagrado
Mas a tua vida não.

Fui ter à mesa redonda
Bebi em malga que me esconde
O beijo de mão em mão.
Era o vinho que me deste
A água pura, puro agreste
Mas a tua vida não.

Aromas de luz e de lama
Dormi com eles na cama
Tive a mesma condição.
Povo, povo, eu te pertenço
Deste-me alturas de incenso,
Mas a tua vida não.

Povo que lavas no rio
E talhas com o teu machado
As tábuas do meu caixão.
Pode haver quem te defenda
Quem compre o teu chão sagrado
Mas a tua vida não.




sábado, novembro 15, 2003

MÚSICA DO DIA, COM LETRAS

Hoje temos Mariza a cantar "Barco Negro", de David Mourão Ferreira.

De manhã, que medo
Que me achasses feia!
Acordei, tremendo,
Deitada na areia...
Mas logo os teus olhos
Disseram que não:
E o sol penetrou
No meu coração.
Vi depois numa rocha uma cruz,
E o teu barco negro
Dançava na luz...
Vi teu braço acenando,
Entre as velas já soltas...
Dizem as velhas da praia que não voltas.
São loucas!
São loucas!
Eu sei, meu amor:
Que nem chegaste a partir,
Pois tudo, em meu redor,
Me diz que estás sempre comigo.
No vento que lança
Areia nos vidros;
Na água que canta;
No fogo mortiço;
No calor do leito;
Nos bancos vazios;
Dentro do meu peito
Estás sempre comigo.

POETA CASTRADO, NÃO

E continuando com o mesmo autor, com a minha profunda homenagem à memória de José Carlos Ary dos Santos, não resisto a reproduzir um dos seus poemas, que eu tive o privilégio de ouvir declamado pelo próprio, nos tempos áureos do PREC, num comício realizado no Pavilhão Carlos Lopes.


Poeta Castrado, Não!

Serei tudo o que disserem
por inveja ou negação:
cabeçudo dromedário
fogueira de exibição
teorema corolário
poema de mão em mão
lãzudo publicitário
malabarista cabrão.
Serei tudo o que disserem:
Poeta castrado não!

Os que entendem como eu
as linhas com que me escrevo
reconhecem o que é meu
em tudo quanto lhes devo:
ternura como já disse
sempre que faço um poema;
saudade que se partisse
me alagaria de pena;
e também uma alegria
uma coragem serena
em renegar a poesia
quando ela nos envenena.

Os que entendem como eu
a força que tem um verso
reconhecem o que é seu
quando lhes mostro o reverso:

Da fome já não se fala
- é tão vulgar que nos cansa -
mas que dizer de uma bala
num esqueleto de criança?

Do frio não reza a história
- a morte é branda e letal -
mas que dizer da memória
de uma bomba de napalm?

E o resto que pode ser
o poema dia a dia?
- Um bisturi a crescer
nas coxas de uma judia;
um filho que vai nascer
parido por asfixia?!
- Ah não me venham dizer
que é fonética a poesia!

Serei tudo o que disserem
por temor ou negação:
Demagogo mau profeta
falso médico ladrão
prostituta proxeneta
espoleta televisão.
Serei tudo o que disserem:
Poeta castrado não!


sexta-feira, novembro 14, 2003

MÚSICA DO DIA, COM LETRAS

Hoje temos Fernando Tordo a cantar "Cavalo à Solta", de Ary dos Santos.

Minha laranja amarga e doce
meu poema
feito de gomos de saudade
minha pena
pesada e leve
secreta e pura
minha passagem para o breve breve
instante da loucura.

Minha ousadia
meu galope
minha rédea
meu potro doido
minha chama
minha réstia
de luz intensa
de voz aberta
minha denúncia do que pensa
do que sente a gente certa.

Em ti respiro
em ti eu provo
por ti consigo
esta força que de novo
em ti persigo
em ti percorro
cavalo à solta
pela margem do teu corpo.

Minha alegria
minha amargura
minha coragem de correr contra a ternura.

Minha laranja amarga e doce
minha espada,
meu poema feito de dois gumes
tudo ou nada
por ti renego,
por ti aceito
este corcel que não sossego
à desfilada no meu peito.

Por isso digo
canção castigo
amêndoa travo corpo alma amante amigo
por isso canto
por isso digo
alpendre casa cama arca do meu trigo.

Minha alegria, minha amargura
minha coragem de correr contra a ternura
minha ousadia, minha aventura
minha coragem de correr contra a ternura.

quinta-feira, novembro 13, 2003

MÚSICA DO DIA, COM LETRAS

Hoje temos Trovante a cantar “Ser Poeta (Perdidamente)”, de Florbela Espanca.

Ser poeta é ser mais alto, é ser maior
Do que os homens! Morder como quem beija!
É ser mendigo e dar como quem seja
Rei do Reino de Aquém e de Além Dor!

É ter de mil desejos o esplendor
E não saber sequer que se deseja!
É ter cá dentro um astro que flameja,
É ter garras e asas de condor!

É ter fome, é ter sede de Infinito!
Por elmo, as manhas de oiro e de cetim...
É condensar o mundo num só grito!

E é amar-te, assim, perdidamente...
É seres alma, e sangue, e vida em mim
E dize-lo cantando a toda a gente!


quarta-feira, novembro 12, 2003

MÚSICA DO DIA, COM LETRAS

A Música do Dia vai dedicar um breve ciclo à música portuguesa, àquela que, entendo, merece ser ouvida com atenção, daí que as respectivas letras sejam aqui publicadas.
Para começar temos José Mário Branco a cantar “Queixa das almas jovens censuradas”, de Natália Correia.

Dão-nos um lírio e um canivete
e uma alma para ir à escola
mais um letreiro que promete
raízes, hastes e corola

Dão-nos um mapa imaginário
que tem a forma de uma cidade
mais um relógio e um calendário
onde não vem a nossa idade

Dão-nos a honra de manequim
para dar corda à nossa ausência.
Dão-nos um prémio de ser assim
sem pecado e sem inocência

Dão-nos um barco e um chapéu
para tirarmos o retrato
Dão-nos bilhetes para o céu
levado à cena num teatro

Penteiam-nos os crâneos ermos
com as cabeleiras das avós
para jamais nos parecermos
connosco quando estamos sós

Dão-nos um bolo que é a história
da nossa historia sem enredo
e não nos soa na memória
outra palavra que o medo

Temos fantasmas tão educados
que adormecemos no seu ombro
somos vazios despovoados
de personagens de assombro

Dão-nos a capa do evangelho
e um pacote de tabaco
dão-nos um pente e um espelho
pra pentearmos um macaco

Dão-nos um cravo preso à cabeça
e uma cabeça presa à cintura
para que o corpo não pareça
a forma da alma que o procura

Dão-nos um esquife feito de ferro
com embutidos de diamante
para organizar já o enterro
do nosso corpo mais adiante

Dão-nos um nome e um jornal
um avião e um violino
mas não nos dão o animal
que espeta os cornos no destino

Dão-nos marujos de papelão
com carimbo no passaporte
por isso a nossa dimensão
não é a vida, nem é a morte

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